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Marketing Social: Uma breve descrição
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Com
o crescimento do Terceiro Setor tanto em volume
de recursos financeiros quanto em relevância
social e política e a sua conseqüente
profissionalização, as modernas
técnicas de gestão dos negócios
foram, pouco a pouco, sendo incorporadas à
área social. Essa área, tradicionalmente,
era o reduto onde as “senhoras da sociedade”
realizavam “obras sociais”, exercitando
sua vocação para a benemerência
ou filantropia. Hoje, porém, a gerência
por (boas) intenções já
não encontra mais espaço no mercado.
Também no Terceiro Setor, a sociedade
espera e cobra resultados concretos e efetivos
? realmente capazes de transformar pessoas carentes
em cidadãos que exercitam seus direitos
humanos fundamentais, ausências e omissões
em presenças ativas e participações,
interrompendo-se o ciclo vicioso da exclusão.
Num
primeiro impulso, entretanto, tenta-se a transposição
dos conceitos vigentes nos setores privado
e governamental para o Terceiro Setor. No
mais das vezes, ao importar as ferramentas
e conceitos de outras áreas para a
área social, propõe-se modificações
e adaptações de natureza “frankesteniana”,
sem levar em consideração as
origens e a natureza dos problemas que se
pretende solucionar. É como se o “social”
tivesse entrado no mercado e, por esse motivo,
devesse estar subordinado às suas regras.
Quando essa é a diretriz prevalente,
as definições propostas para
o marketing social costumam ser ? praticamente
? as mesmas que se empregam para o marketing
comercial, trocando-se aqui e ali algumas
palavras-chave. Outros estudiosos, mais atentos,
procuram caminhos próprios para definir
o marketing social.
A
expressão marketing social surgiu nos
Estados Unidos, em 1971, e foi usada pela
primeira vez por Kotler e Zaltman ? que, na
época, estudavam aplicações
do marketing que contribuíssem para
a busca e o encaminhamento de soluções
para as diversas questões sociais.
Naquele ano, eles publicaram no Journal of
Marketing, um artigo intitulado Social Marketing:
An Approach to Planned Social Change, no qual
conceituaram o marketing social como sendo
o processo de “criação,
implementação e controle de
programas implementados para influenciar a
aceitabilidade das idéias sociais e
envolvendo considerações relativas
ao planejamento de produto, preço,
comunicação, distribuição
e pesquisa de marketing”5.
Nesse
mesmo artigo, os dois autores defendiam a
tese de que o “marketing social é
um dos novos desenvolvimentos mais promissores,
cuja efetiva aplicação espera-se
que venha a aumentar a eficácia dos
agentes sociais de mudança, no sentido
de proporcionarem as transformações
sociais desejadas”. Pouco depois, em
meados de 1972, Eduardo Roberto publica o
livro intitulado Social Marketing: Strategies
for Diffusing the Adoption of Family Planning.
Embora tendo como foco a aplicação
dos princípios e métodos do
marketing social aos programas de planejamento
familiar, ele corroborava ? em linhas gerais
? as idéias de Kotler e Zaltman, sobretudo
quanto à tese de que o marketing social
constituía “uma das principais
ferramentas para a promoção
de mudanças de comportamentos, atitudes
e práticas”6.
Em meados de 1978, foi publicado no Brasil
um outro livro de Kotler, intitulado Marketing
Para Organizações Que Não
Visam Lucros. Nele, o autor procura demonstrar
a importância de se aplicar, na área
social (Terceiro Setor), os princípios
e métodos de marketing utilizados pelas
empresas que têm finalidades de lucro.
Resumidamente, Kotler defende a idéia
de que uma organização social
deve incorporar aos seus quadros um profissional
de marketing, nas esferas de decisão,
e que teria as seguintes atribuições
principais7:
a)
Identifique os mercados em que organização
atua ou poderá atuar, os seus diversos
públicos-alvo e os respectivos segmentos;
b) Pesquisar, analisar e conhecer os comportamentos,
as atitudes e práticas dos segmentos
populacionais que se pretende atingir;
c) Estabelecer o posicionamento que se pretende
que o conceito ou causa social promovida tenha
na mente dos vários públicos-alvo;
d) Definir, criar, propor e desenvolver os
produtos sociais necessários para se
obter as mudanças comportamentais pretendidas;
e) Estabelecer o marketing mix da organização
(Produtos, Preços, Promoção,
Pontos de Distribuição, Públicos-Alvo
e Pessoal).
Além
disso, esse profissional deveria responsabilizar-se
pela implementação das ações
de marketing, acompanhando-as e avaliando
os resultados obtidos, e procedendo às
mudanças ou correções
necessárias para o êxito do empreendimento
social desenvolvido pela organização.
Kotler também deixa claro que, mesmo
na área social, o trabalho de uma organização
deveria começar e terminar num mesmo
ponto focal: o cliente. Fundamentalmente,
é o grau de satisfação
dos clientes com os serviços utilizados
e/ou com os novos comportamentos, atitudes
e práticas adotadas que determina o
nível de eficácia e eficiência
da organização.
O
grande interesse de Philip Kotler e Eduardo
Roberto pela área social iria render,
ainda, um importante livro ? que foi publicado
em 1989 pela Free Press, com o título
de Social Marketing. No início de 1992,
a Editora Campus lançou esse trabalho
no Brasil, sob o título de Marketing
Social: Estratégias Para Alterar o
Comportamento Público. Neste trabalho,
os autores definiram o marketing social como
sendo “o emprego dos princípios
e técnicas de marketing para a promoção
de uma causa, idéia e/ou comportamento
social”8.
Segundo
Kotler e Eduardo, a partir de 1971, quando
usaram pela primeira vez a expressão
marketing social, “o termo passou a
significar uma tecnologia de administração
da mudança social, associada ao projeto,
à implantação e o controle
de programas voltados para o aumento da disposição
de aceitação de uma idéia
ou prática social em um ou mais grupos
adotantes escolhidos como alvos. Recorre a
conceitos de segmentação do
mercado, pesquisa de consumidores, desenvolvimento
e testes de conceitos de produtos, comunicação
direta, facilitação, incentivos
e teoria da troca, para maximizar as respostas
dos adotantes escolhidos como alvos. A instituição
patrocinadora busca concretizar os seus objetivos
de mudança na crença de que
eles contribuirão para o interesse
dos indivíduos ou da sociedade”.
Esta mesma definição já
havia aparecido no livro Marketing, também
de autoria de Kotler e publicado no Brasil,
em 1991. Mantendo a lógica da transposição
dos conceitos e ferramentas da área
comercial para a social, Kotler também
adotaria as teses assistenciais para a área
social. Assim, a geração de
condições para o exercício
dos direitos humanos fundamentais transforma-se
em ação assistencial e os clientes
passam a ser considerados como beneficiários
ou assistidos. Nesta linha, ele confere ao
marketing social uma “abordagem sistemática
para o planejamento de benefícios a
serem oferecidos a um público distinto”
9.
Uma
outra conceituação, hoje bastante
difundida, foi proposta por Glenn Wasek, professor
da Escola de Pós-Graduação
em Saúde Pública da Universidade
de Harvard. Dando ênfase aos aspectos
operacionais e aos objetivos programáticos,
ele afirma: “marketing social é
o emprego do planejamento de mercado, estratégia,
análise e técnicas gerenciais
tradicionais e inovadoras para garantir o
bem-estar do indivíduo e da sociedade”10.
E, privilegiando o cliente, ele conclui: “É
um programa público do ponto-de-vista
do consumidor”. Embora tenham muitas
aplicações, segundo Wasek, “as
técnicas do marketing social são
mais poderosas quando incor-poradas ao processo
de elaboração de intervenções
na saúde pública”.
Finalmente,
para Atucha, “o termo marketing social
é empregado para descrever o uso de
princípios e técnicas de marketing
para a promoção de uma causa,
de idéias ou de um comportamento social.
É uma tecnologia de administração
da mudança social associada ao projeto
de implementação e controle
de programas destinados a aumentar a disposição
das pessoas ou grupos para a aceitação
de uma idéia, um comportamento ou uma
prática social”11. Com experiência
acumulada em diversos países e em muitos
anos de atuação no mercado social,
Atucha propõe uma definição
mais operacional para marketing social:
“Marketing
social é uma ferramenta democrática
e eficiente, que aplica os princípios
e instrumentos do marketing, de modo a criar
e outorgar um maior valor à proposta
social. O marketing social redescobre o consumidor
por meio do diálogo interativo, o que
gera condições para que se construa
o processo de reflexão, participação
e mudança social. Os resultados são
mensuráveis pelos seus efeitos e avaliados
por sua efetividade”.
Uma interpretação
mais recente identifica o marketing social como
sendo uma metodologia inovadora, capaz de fazer
evoluir o modo de lidar com idéias, atitudes,
conceitos, ações, comportamentos
e/ou práticas, visando promover transformações
sociais específicas. Para cumprir os seus
objetivos, um programa de marketing social deve
atingir uma grande audiência em um curto
período, assegurando tanto as mudanças
comportamentais planejadas quanto a sua continuidade
ao longo do tempo (efetividade). Neste contexto,
Schiavo e Fontes analisaram as diversas diretrizes
de atuação e propuseram a seguinte
conceituação12:
“Marketing social é
a gestão estratégica do processo
de mudança social a partir da adoção
de novos comportamentos, atitudes e práticas,
nos âmbitos individual e coletivo, orientadas
por princípios éticos, fundamentados
nos direitos humanos e na eqüidade social.
O termo é empregado para descrever o
uso sistemático dos princípios
e métodos do marketing orientados para
promover a aceitação de uma causa
ou idéia, que levem um ou mais segmentos
populacionais identificados como público-alvo
a mudanças comportamentais quanto à
forma de sentir, perceber, pensar e agir sobre
uma determinada questão, adotando a respeito
novos conceitos e atitudes”.
Schiavo e Fontes esclarecem,
também, que ? para construir e desenvolver
o seu modelo teórico-operacional ?, “o
marketing social apropria-se dos conhecimentos
e técnicas mercadológicas, adaptando-as
e colocando-as a serviço da promoção
e difusão das inovações
sociais, do desenvolvimento e bem-estar social”.
Segundo eles, no marketing social, trabalha-se
com diretrizes e objetivos claramente definidos,
metas mensuráveis, pesquisas e/ou avaliações
de natureza quantitativa e qualitativa, além
de visar o desenvolvimento de produtos sociais
destinados a segmentos populacionais específicos,
definidos como públicos-alvo.
No
marketing social, busca-se posicionar na mente
do público-alvo as inovações
sociais que se pretende introduzir, implementando
estratégias, criando, planejando e executando
campanhas de comunicação, a fim
de satisfazer necessidades e expectativas que
não estão sendo atendidas, estabelecendo
novos paradigmas de ação social.
O marketing social propicia, ainda, que sejam
criadas, desenvolvidas e aplicadas novas técnicas
de intervenção social, produzindo
e ampliando conhecimentos e sua efetiva aplicação
no mercado social.
* Márcio Ruiz Schiavo é professor
universitário, especialista em marketing
social e Diretor da Comunicarte Marketing Cultural
e Social.
Fonte:
http://www.socialtec.org.br/
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