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Como se fosse pela Primeira Vez :: |
L embro-me
quando adolescente de acompanhar admirado pelos
jornais que determinado espetáculo teatral
completava cinco anos em cartaz. Então,
questionava-me como poderiam aqueles atores literalmente
suportar a mesma interpretação por
duas ou três sessões seguidas, ao
longo de três ou quatro dias consecutivos,
ao cabo de tantos anos. Como tolerar os mesmos
procedimentos de bastidores, a rotina de um mesmo
script, piadas e cenas melancólicas igualmente
dramatizadas, além de platéias similares,
variando da animação à apatia
nos mesmos momentos da apresentação?
Anos
depois comecei a utilizar o transporte aéreo
com certa regularidade. E aquela mesma pergunta
tornou a me avizinhar o pensamento. Como podem
pilotos, co-pilotos e equipe de comissários
extraírem prazer de tarefas tão
rotineiras? Da recepção dos passageiros
à checagem das normas de segurança,
passando pelo serviço de bordo, tudo transcorre
religiosamente de igual maneira a cada decolagem
e pouso... A vida me reservou surpresas, mudando
de forma radical o curso de minha história.
De economista para publicitário, de empresário
para consultor, de executivo para escritor. E
palestrante. De repente, vi-me num palco, microfone
na mão, olhos voltados para uma platéia,
por vezes tão reduzida que torna possível
saber o nome de cada um dos participantes, e por
vezes tão ampla que os olhos não
ousam alcançar o último dos presentes.
E,
neste ofício, descobri que não há
rotina, que inexiste a mera repetição.
Cada apresentação é singular,
porque os participantes são diferentes,
porque o ambiente conspira de forma diversificada,
porque meu estado de espírito é
incomparável. Lembro-me de Saint-Exupéry:
“Cada um que passa em nossa vida, passa
sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui a outra. Cada um que passa
em nossa vida, passa sozinho, mas quando parte
nunca vai só nem nos deixa a sós.
Leva um pouco de nós, deixa um pouco de
si mesmo. Há os que levam muito, mas há
os que não levam nada”.
Tenho
amor verdadeiro pelo trabalho que desenvolvo.
Tal qual o ator ama o palco e o piloto, sua aeronave.
Cada peça apresentada é única;
cada vôo, ímpar. Porque as platéias
de todos nós são invariavelmente
distintas. O tempo passa e a idade aplaca-se sobre
nós. Amadurecemos, mas também perdemos
coisas. E só nos damos conta de nossas
perdas depois que elas ocorreram. E todo final
de ano colocamo-nos a refletir sobre o que fizemos,
o que conquistamos, o que faremos e para onde
iremos. A rigor, podemos qualificar nossas vidas
como absolutamente rotineiras. Uma repetição
constante de tarefas e experiências em favor
da sobrevivência, da subsistência.
Apenas passamos. E podemos nos imaginar humanamente
medíocres, vivendo vidas previsíveis
e medianas.
Mas também podemos tornar estes eventos
únicos, posto que os são. Basta
fazer tudo como se fosse pela primeira vez. E
pela última vez. A virada do ano, dizia
Drummond, industrializa a esperança. Mas
pouco adianta acreditar que este fato isoladamente
será suficiente para fazer você mudar
de vida. Fazemos isso a cada dia, a cada momento,
a cada atitude. Que assim seja com um abraço
terno, com um beijo afetuoso, com um olhar reluzente
desferido a quem se despede. No despertar para
ir ao trabalho, numa reunião de negócios,
no almoço com os amigos, no retorno ao
lar. No dia de Natal, no Reveillon e em cada um
de seus próximos 365 dias.
Autor:
Tom
Coelho
*Tom
Coelho, com graduação em Publicidade
pela ESPM/SP e Economia pela FEA/USP, tem
especialização em Marketing
e em Qualidade de Vida no Trabalho. Foi executivo,
empresário, Secretário Geral
do IQB/ INMETRO e Diretor do Simb/Abrinq.
Atualmente é consultor financeiro,
professor universitário, palestrante
e escritor com artigos publicados regularmente
por mais de 200 veículos da mídia
eletrônica e impressa em 11 países.
É co-autor do livro “Roda Mundo,
Roda-Gigante”, antologia internacional
publicada em 2004 e 2005.
Contato: tomcoelho@tomcoelho.com.br
Fonte:
Portal de Marketing©
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